Menos cor de rosa
e o tempo de se recompor
Como voltar se quem foi embora não existe mais? Sobre o que escrever? Como não se tornar uma autora sobre maternidade? Virginia Woolf dizia, lá em 1928, para as mulheres viajarem, saírem do espaço feminino óbvio - a casa - e ter um lugar só seu para criar caso fosse artista. As mães, então, não são bem vindas? Como elas, especialmente as de bebês, veem outros mundos? Em que momento voltam a existir individualmente? Cabe buscar um sonho só seu enquanto sua filha cresce ou essa experiência deveria bastar como realização? Quando voltamos a rodar no mesmo ritmo do resto do mundo? Quando será possível concluir uma frase sem parar no meio por esquecimento ou interrupção? Como vencer o sono a ponto dos neurônios voltarem ao trabalho de forma minimamente eficiente?
Como se abastecer de arte quando se tem tanta louça para lavar? Ler no Kindle ou marcar os médicos ou fazer o mercado - graças aos céus online - ou pedir o orçamento da festa de um ano (sim, já!) ou perder tempo no feed das redes sociais porque seu cérebro não se sente capaz de mais nada? Como não fazer deste texto mais uma grande indagação de angústias maternas e familiares e sociais?
Andando de volta para casa após uma rara saída, lembrei como a rua é importante para a alma de quem escreve. Eu amo a rua, disse o cronista João do Rio*. Eu também amo. Há bons anos, num cartão de natal ou aniversário, uma amiga me escreveu: “essas ruas tão suas” sobre o bairro em que morava na época. Nunca esqueci porque é muito eu. A cada novo lugar, dominar as calçadas. Mesmo as ruins e esburacadas de Botafogo.
Consegui ir até Ipanema para fazer a sobrancelha com a Sil. Ufa! Em dezembro, precisei ir a uma moça cujo serviço com a pinça não me deixou plenamente satisfeita; já a conversa foi daquelas que o Universo coloca no seu caminho, sabe? Ela me contou que tem dois filhos e, por isso, dá de mamar há quase quatro anos. E aí, no meio da pauta maternidade, perguntou se eu sabia da história dos flamingos. Não, não sei nada sobre flamingos. Bem… as flamingas, quando ficam grávidas e após o parto, perdem a cor por um tempo. O rosa típico retorna as suas penas quando seus filhotes se tornam independentes na alimentação. E aí ela fechou: igual nosso puerpério, a gente perde um pouco nossa cor, mas ela reaparece aos poucos. Quando cheguei em casa fui checar os fatos e é verdade. “Flamingos can indeed lose some or all of their vibrant pink coloration while raising their young due to the transfer of carotenoid pigments to their chicks via crop milk. Once the breeding period ends and the adults resume their own carotenoid-rich diet, the pink hue gradually returns.”, The Environmental Literacy Council. Será que minha cor está começando a voltar?
Outra vez na rua… fui à nutricionista para consulta do retorno pós parto. Não estava atrasada nesse caso, ela disse para esperar um pouco mesmo. Amamentar dá fome e é bom respeitar isso e nosso processo de renascimento (ou nascer outra pessoa?). Foi um conselho acertado. Conversamos sobre comidas, celulites, Malu e sua IA, amamentar etc. Em algum momento perguntei: Helena, quando você se sentiu de volta a si? Ela disse: eu me senti desconectada do mundo por quase dois anos. A resposta foi dois em um. Ganhei uma forma de explicar minha sensação: desconectada do mundo. Como ela mesma destrinchou no dia: tudo parecia andar num ritmo que não era o meu, estava lenta, esquecida, fora de órbita. Ou seja, minha questão não é me sentir fora de mim e sim fora do externo; isso é uma descoberta muito relevante. Na verdade, a maternidade te faz sair do ritmo imposto. Parte do nosso sofrimento é uma briga interna para alcançar essa velocidade de novo. Não preciso dizer que é impossível. Tema para próxima terapia.
Ainda sobre o ritmo do mundo… Como a mãe paga as contas se não correr no tal ritmo do mundo se ela está com outro fôlego? A conta não fecha. A minha pelo menos não. As amigas com trabalho pago e com crianças pequenas precisam fazer milagres nas horas do dia e estão em constante débito com suas próprias atividades não profissionais/maternas. Contratamos o apoio do cuidado pago para me dar suporte por dois dias. Assim volto a escrever e tento reocupar meu lugar no trabalho informal. Faz um mês. Ontem entreguei ao meu terapeuta: como vou me escolher se surge tanta demanda extra e surpresa? Ainda não temos respostas.
Para fins de clareza, não estou devedora de ninguém. Há um pai responsável e consciente no corre e uma vida em comum acordo.
Toda mulher nascida pós revolução feminista aprendeu que trabalho e dinheiro são bens de poder. Nas séries, filmes, livros e recentemente nos posts do Instagram o discurso é o mesmo: ter sua carreira é um trunfo. E quem não tem ou é burra ou conservadora burra ou preguiçosa. São tantas camadas neste assunto que uma redução simplista do que acomete a vida profissional de uma mulher é mais um machismo a ser enfrentado. Pior ainda porque vem de um entretenimento dirigido por homens porém creditado por mulheres. Uma mãe sem rede de apoio tem poucas possibilidades. Nem sempre a creche possível atende sua visão de educação e cotidiano para seus filhos. Nem sempre dá para pagar uma babá. Nem sempre dá para ter faxina paga em casa. E se não tem como tudo isso, a proposta é uma vida de trabalho fora, trabalho dentro, trabalho eterno. Ainda que haja participação justa do parceiro, a conta não fecha mais uma vez. Me parece que quem propõe essas coisas nunca precisou cuidar de uma cozinha e acha que todo mundo tem as mesmas 24h.
O forno está assando abóboras. Sinto calor. É verão.
Está tudo novo e está tudo igual.
Eu quero trabalhar não só porque o entretenimento me disse que era necessário para viver como uma mulher feliz neste século. Quero porque me realiza. Quero porque se tudo der certo aumenta a renda da família. Quero porque minha filha ganha uma referência feminina no mercado. Por mim. Por meus talentos. Por minha criatividade. Por respeito às minhas ideias. Pelas blusinhas que quero comprar. Pelas viagens a fazer.

Como ser uma profissional suficientemente boa agora que sou mãe suficientemente boa? Vai bastar? Como me encaixar na velocidade do mundo sem tropeçar nos meus próprios pés? Como colocar de pé os projetos desenhados ao longo de um puerpério dolorido porém criativo? Como esta nova ocupa as tarefas de antes? Como ela realiza sonhos?
Como voltar se quem foi embora não existe mais?
*está registrado em uma bolsa linda da Livraria da Travessa; queria, mas grande para minha mini estatura
No tempo em pausa daqui:
Tenho usado mais o Instagram. Entendi que eu gosto do formato: foto + texto. Me lembra um álbum de fotografias de papel. O problema lá é a comparação! Acompanhamos as coletâneas de imagens dos outros e pensamos serem melhores que as nossas. Ahh a grama do vizinho… Meu antídoto tem sido a falta de tempo ou minha atual crise - como se vê no texto acima - de identidade pós maternidade. Tenho pouco tempo para o drama e estou quase sempre com sono. Ou apenas amadureci. De um jeito ou de outro, posto e apareço e aprecio. Faço no meu fluxo, sem nenhuma direção de marketing ou branding e atendendo o genuíno desejo de partilhar dicas e dizeres mais curtos que os daqui. Se também estiver por lá, que sejamos bons vizinhos.
Ando ouvindo incansavelmente esta música; “Y si llega todo a cambiar/ Un sereno entorno se verá /Has oído bien, puede que /Haya nuevos horizontes /¿Sabes por que? /¿Sabes por qué no dejaré /De soñar un poco más? /Una y otra vez”. Já chorei mais de uma vez com a melodia e letra.
Estamos oficialmente de volta! Feliz 2026 para vocês queridos leitores. :) Agora é real, a Tempo para você retorna ao ritmo semanal e logo mais com novidades. Estou muito animada para dar andamento a este projeto e ao mesmo tempo tensa pensando em como será fazer tudo que quero nos meus múltiplos trabalhos: a escrita, a filha, a casa. Vai dar! Tudo terás, tudo terei, essa é a prece do ano.
Um beijo,
Gabi



Gostei muito da metáfora dos flamingos: perder a cor para cuidar de alguém e depois recuperá-la aos poucos. Talvez esse tempo seja necessário para alguma transformação importante dentro da gente.
Quase perdi seu texto pelo feed, Gabi! Bom ler você. A situação da 'flaminga' sem cor me pegou, viu. É uma fase, é um processo que um dia acaba e outro recomeça. Desejo força, colo e paz para passar por esse momento.