Sê inteira
a completude da maternidade é uma coletânea de recortes
Minha filha é a casa. O vilarejo. O corpo. É o sentimento. A urgência. É o surpreendente: uma raiva, um medo, um amor desmedido. É a falta de tempo e é também esquecer o relógio. Me leva a temer tudo e todos. Me faz tão forte que causa estranheza na minha estrutura. Sou totalmente dedicada, apaixonada e emocionada com os passos que ela dá. E ela dá muitos porque me chegou “pirilampa”. Eu sabia desde que era uma semente na barriga. Senti que vinha uma canhão de luz. Ilumina sem alarde tal qual o bichinho pirilampo e assim a apelidei. Meu pai diz que ela é feliz, alegre e forte como a música da Marisa Monte. Como passou por minhas entranhas, me fez o favor de também me fazer feliz, alegre e forte. Deu jeito de levar isso ao pai também. Com essa energia toda, claro, não dorme. Então, a maternidade me fez saber que consigo existir dormindo pouco. E ainda cuidar do pequeno ser. Tenho medo do escuro mas aceito a penumbra para ajudar no sono dela. Aliás, venci inúmeras inseguranças. E me reconheci gigante. Decido, guio, educo, dou firmeza a nossa família e nossa forma de viver. O pai diz que ama minha versão mãe porque distribuo “foda-se” por aí. Finalmente. Me resolveu em alguma camada. Maternar me coloca de frente para o passado e o futuro. Vivo de perdoar e esquecer os ontens e confiar num amanhã que se mostra cada vez mais duro. Vi uma entrevista esses dias com a jornalista Aline Midlej dizendo que não devemos querer um mundo melhor pros nossos filhos e sim criá-los para fazer este lugar melhor. Pensei que além disso, é preciso ensinar a sobreviver ao absurdo e ao inóspito do nosso tempo. É preciso ter força e raça para viver o possível apocalipse. Me quebro inteira só de pensar nos 50 anos à frente. E me refaço fingindo que está tudo bem. Quero nunca mais sair de perto desta menina e quero sair correndo pra ir nas peças e cinemas noturnos. Para ler um livro de papel em paz. Ver meus filmes natalinos com chocotone sem barulho ao fundo. Agora as cenas se realizam na minha casa com mil peripécias incluindo a criança puxando a árvore de Natal e quase destruindo a decoração da celebração. Me mantenho escritora, jornalista, estudiosa, cozinheira e dona de casa. Ainda sou curiosa, vaidosa, amiga, andarilha, sonhadora. E de alguma forma, não sou mais nada disso. Ou sou tudo isso diferente de antes. Não sei nem quais livros comprar na promoção. A minha filha ocupa todos os meus pedaços ainda que eu faça força para manter algo só meu. Me tornei um grande encontro de todas as minhas partes. Até as perdidas foram chamadas de volta. E as que sequer conhecia se instalaram sem data de partida. A maternidade é uma bagunça de reações e sensações. Envolve todos os sentimentos do mundo. É inteira. Estou inteira. Estou em casa.
Escrever esse texto me lembrou um trecho da música “1 de julho” cantada por Cássia Eller e escrita por Renato Russo para ela quando estava grávida:
“Sou fera
Sou bicho
Sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha
Minha irmã, minha menina
Mas sou minha
Só minha
E não de quem quiser
Sou Deus
Tua deusa, meu amor”
Ser mãe, parir, cuidar, alimentar, criar. Tudo isso traz consigo a enorme responsabilidade de ser a adulta de uma pequena criatura em construção. É um trabalho cansativo, difícil e cheio de desafios. Por outro lado foi a única coisa capaz de me fazer sentir forte, confiante e capaz. Apesar de reclamar das partes exaustivas e achar que vou colapsar a qualquer momento - tenho o direito haha - é com o olhar de expansão que escolho ver tudo que me alcança nessa nova vida. Quis registrar este gigante apesar de.
Boa semana!!
Pretendo voltar ainda este mês com os melhores de um ano pra lá de diferente 😅
Beijos
Gabi


Me tornei mãe pela primeira vez há 10 anos. E, agora, mais uma vez, há 2 anos. É exatamente isso: loucura, bagunça, amor, desejo de sair correndo e depois de voltar imediatamente. Parece não fazer sentido algum, mas é todo o sentido.
Me identifiquei com cada linha (1 ano e 2 meses 👶🏻 por aqui!). Texto incrível 🫶🏻