Recordar é viver
sobre um tempo em que não havia telas nem redes sociais
A cena é um show de Alanis Morissette nos anos 1990 com o coro cantando Ironic em alto e bom som. O público inteiro olhando para o palco, entregue a letra, a melodia e ao momento. Vi tudo isso em um vídeo nas redes sociais. Me deu um nó na garganta a lembrança do que já fomos e a constatação do que nos tornamos. Foi triste. Pensei em quais experiências minha filha vai ter. Como vai ser, para ela, assistir seu artista favorito ao vivo. Ou ir a uma festa. Ou a uma viagem sem a gente controlando a tela.
Como o algoritmo nos lê, outros vídeos desses surgiram.
Agora, uma balada, todo mundo de cócoras, esperando aquele ápice da música para pular e dançar. Nostalgia. Quis sentir tudo de novo. Gosto de rever fotos antigas, relembrar momentos e costuma ser um instante de saudade boa. Fico feliz. É um atestado de ter vivido bem. Mas, esse movimento de rever a vida sem tela nas mãos através do celular me deu uma sensação diferente. Mais uma vez, uma coisa entalada na garganta que nem sei bem explicar. Não foi gostoso.
Tentando traduzir para este texto ganhar, a sensação foi de estar presa em uma dimensão diferente daquela memória. Me senti como o Cooper, personagem do filme Interestellar. Um astronauta que embarca para uma missão sabendo que pode nunca mais ver os filhos porque o tempo para ele vai correr diferente. Então, ao menos por uma fase da vida, eles estarão vivendo anos distintos. Ele não consegue acessar o mundo dos filhos e vice-versa. Ou seja, estou bloqueada aqui na Terra mesmo, tal qual ele no espaço. Porque mesmo querendo, para experimentar tudo que gostaria dos anos passados, não bastaria decidir assistir um show sem celular. Sozinha não conta. Para aquela energia acontecer de novo precisaríamos de um pacto coletivo. Todo mundo presente, inteiro.
Esse viver absoluto também tinha outras camadas, inclusive, para além da alegria. Pesquei na memória os shows que não me senti bem, os que voltei para casa sozinha, os que tive cólica e precisei sentar em um cantinho até passar, os de altas expectativas que foram uma porcaria e os de muita chuva em ambiente aberto. Estar presente é sobre sentir. Se você está ansioso com a multidão, se emocionando ouvindo aquela música que te lembra de algo especial, de uma dor específica. Se, depois, vai querer parar para comer um hambúrguer. Se o desconhecido do seu lado ali na plateia tem uma história legal para contar.
Essas experiências calibraram meu radar para saber, em festas e afins, quando ir embora, quando ficar e com quem contar. Será que com a abstração do celular isso ainda existe? A geração seguinte a minha conseguiu aprender a se saber? A gente ainda é capaz de sentir? Ou só ansiar?
Até porque mesmo com a calibragem realizada no zero telas - não tinha essa opção no meu tempo -, vivo às voltas com meu uso tecnológico de hoje. Me pergunto se estou suficientemente presente com minha filha. Se estou sendo menos produtiva nas horas “livres”. Se deveria usar menos o Instagram. Ao mesmo tempo, agradeço a existência da internet porque pelo menos no campo digital consigo existir junto com outras mães. Tenho absoluta certeza de que nenhuma mulher, mesmo na Idade Média, viveu a maternidade sem abstrações. Enquanto ela dorme ou brinca, leio um pouco, assisto uma série, dou risada de piadas, mato saudades de quem está longe. Somos elos mesmo distantes. Não sou uma saudosa querendo viver o passado tal qual como era. Ninguém tira meu Iphone de mim.
Mas, desde que vi o vídeo da Alanis, junto com a gratidão tecnológica, amaldiçoo o dia que começamos a usar os aparelhos até durante o show da nossa banda favorita. Em que momento a convenção social foi de aceitar esse tipo de conduta? Como não continuar desse jeito? Estou cansada de concluir que é preciso repensar nosso estilo de vida, nossos valores, nossa forma de olhar o todo e o outro e de não saber como isso vai acontecer. Ou mesmo se ainda é possível. Precisaria ser coletivo, mais uma vez, e puxar essa corda está quase impossível.
Mais uma lembrança entregue pelo Instagram: a seleção brasileira no vestiário, Ronaldinho Gaúcho tocando pandeiro, Ronaldo dançando, todo mundo rindo feliz. Quando a gente sente falta até de Romário prometendo vitória da seleção na Copa é porque a coisa está feia. Se algum gen z me acompanha aqui, será preciso usar o Google ou a IA para entender. Mas, a gente já foi feliz e era sabido. Perdemos o viço. O corpo forte. O gingado.
Dá para ser assim de novo?
Teremos de encontrar outro ritmo. Dançar outra música. Talvez eu - e todos nós - precise mesmo é aceitar que a outra vibração não existe mais. Desde que quem comesse o novo coro não seja Virginia, está tudo bem. Afinal, precisa saber sambar. Feliz, não sei se a gente consegue, mas a piada a gente não pode perder, então vamos rir sim.
“Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar, o morro foi feito de samba, do samba pra gente sambar”, Alcione na música Não deixe o samba morrer.
“Nós vamos sorrir. Sorriam”, Eunice Paiva no filme Ainda estou aqui.
Uma semana de presença para nós.
Gabi!




Tou deixando de ir a show grande porque não consigo assistir, nem na área vip. Uma tristeza sem fim...
" Para aquela energia acontecer de novo precisaríamos de um pacto coletivo. "
Menina, pesou aqui! Tem dias em que saio com as melhores intenções de engajar completamente nas pessoas com quem estou presente, e aí, de repente, fico abandonada por que o combinado foi interno, e não dá pra decretar quem vai de presença (se é que pode, nunca sabemos)...