querer muito mais
sem perder nada
Será que você sabe que eu queria estar escrevendo ao invés de repetindo “cadê? Achou”? Ou que eu poderia estar lendo um livro que exige atenção profunda e não imitando o rugir de um dinossauro? Nem sei se dinossauro ruge, para ser sincera. E que depois de você eu não consigo me concentrar mesmo sem estarmos juntas no mesmo ambiente? Minha mente corre para a sua.
No final do livro da Virginia Woolf, Um teto todo seu, ela sugere às mulheres que façam viagens. É preciso descobrir outras paisagens! Não é só sobre ter sua mesinha, seu teto, é também poder sair dali. Não se render apenas as paredes de uma casa, os ingredientes de uma ótima receita ou as roupinhas miúdas a lavar. Eu, ousadamente, acrescento que a maternidade e a rotina caseira são, assim como a rua, viver e é um grande campo de ideias e semeadura para palavras. Mas, concordo, não basta. Não para almas como a minha. Não me parece ser também para a sua, pequena. Você mal existe e já perambula pelas ruas com o olhar e o fascínio de quem tem gosto pelo mundo e, como boa carioca, se chateia com dias de chuva.
Um dia, irás ler Woolf e esse ensaio; não te deixaria escapar disso, é uma espécie de tratado para mulheres, e entenderá o que te digo. Esse tipo de profecia é coisa de mãe.
Tem horas do dia, minutos para ser exata, que você se senta perto dos seus brinquedos, se concentra, cria uma linguagem própria, descobre movimentos novos no seu corpinho. É emocionante assistir o desenrolar dos teus ganhos. Primeiro mexe um dedinho, depois o pé, depois vira para um outro lado, depois firma no equilíbrio e aí você gira em torno de si mesma. A gente esquece que aprende essas coisas. Roda roda roda. No adulto parece miudeza e ainda deixa a gente tonto. Esquecemos que é preciso ver o mundo embaçado às vezes. Minha vontade nesses momentos é de não perder nenhum desses micro avanços.
Tenho percebido seus quadris se prepararem para saltos. Você agacha, levanta, sobe em lugares mais altos, nem que seja 3cm. Se ajeita, desce devagar. Pede minha mão. Ajudo. Aí de repente voltamos para o “cadê? Achou!”. E aí eu lembro que não li ainda O farol, também da Woolf. Não escrevi tudo que planejei e perdi muitas ideias no caminho. Como é que faz o leão? Roarrrrrrr Rrrrrooooor. Meu cérebro pensando como iremos sair daqui desse zoológico.
Como podemos amar tanto e querer tanto fazer outra coisa? Pego um doce para me dar alegria imediata. Na prática, o açúcar se encaminha para meu abdômen e aumenta minha gordura localizada gerando mais uma frustração.
À noite, antes de deitar, lavo louça, preparo umas comidas e passo pela sala. Tudo espalhado. Lembro da música cafona de uma dupla sertaneja, mas nada mais consegue traduzir essa cena. O amor é cafona, afinal. “Tem brinquedo espalhado pela casa toda e as paredes rabiscadas com um giz de cera, mudou de tal maneira, nossa vida já não é a mesma; A gente já não dorme mais a noite inteira. Na mesa tem dois copos e uma mamadeira. Mudou de tal maneira. Nossa vida já não é a mesma. Tem um pinguinho de gente correndo na sala com o sorriso banguelo, eu não quero mais nada”.
Já eu… eu ainda quero muito. E você também. Isso eu acho que você já sabe. Te dou muito colo enquanto estamos pertinho, aí você cansa do meu leão e do meu dinossauro e sai pela sala procurando outra coisa. Toca seus instrumentos tamanho baby. Dança. Morde coisas. Pega seus sapatos e me entrega pedindo para sair do nosso teto. E aí a gente sai por aí com nossos quereres. Nem todos os meus e nem todos os seus são atendidos. É a vida. A gente segura umas petecas que mais parecem bola de chumbo. Damos conta e ainda fortalecemos o braço para a hora em que estivermos virando em esquinas diferentes, precisando dar tchau.
Se você não sabe, fique sabendo agora, que mesmo cheia de quereres a mais e de tédio do “cadê? achou!” e de confabulações sobre liberdade, meu desejo mesmo é poder ir e também ficar. É não perder nada, nem de você nem de mim. Será que dá? Acho que não.
Chegará um momento em que seguiremos nossos caminhos livres, ora sozinhas, ora juntas. Será um pouco assustador porque é assim que é. Manteremos o passo pois teremos - já temos - a sua infância como alicerce. Este nosso jeitinho de vivê-la a faz ser tombada como patrimônio histórico emocional. Mesmo que durante a construção eu - e seu pai também - tenha desejado por diversas vezes estar lendo um livro ao invés de fazendo Roarrrarrr, essa estrutura, minha menina, te deu e me deu a força e a coragem para sairmos do teto e andarmos com nossas próprias pernas e asas. Prepara mesmo teu salto, é hora de voar.
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Geraldo Vandré
Malu fez um ano! Dá para acreditar?! Escrevi sobre aqui.
Até a próxima,
Gabi!



Lembrei do meu filho (que já vai fazer 8 anos) aprendendo as pequenezas da vida e o tanto de poesia que eu via ali. Foi uma fase de redescoberta do mundo - desesperadora, mas também bonita. Seu texto me conectou com o que eu escrevi quando ele deu os primeiros passos. Não quero esquecer que a gente nasce aberto a queda! Obrigada pela partilha ♥️
E o mais lindo de tudo é que essa poesia nunca acaba. Elas continuam espalhando essa beleza na nossa vida mesmo diante do tempo passando…