Listão literário para atravessar 2026
nada como um bom livro para doses de esperança, amor e fôlego
Agora que estamos começando o ano oficialmente - pós Carnaval - e dadas as suas circunstâncias - mais uma eleição acirrada e todo resto catastrófico deste século - fiz um listão literário para nos ajudar a atravessá-lo com mais esperança. Ou pelo menos com menos sensação de afundamento. Nas sugestões trouxe histórias “leves” e também tristes e densas porque a ideia não é ser uma leitura usada como atalho para não sentir dor e nem como base para construção de um otimismo besta. O desejo é provocar uma sensação de “ainda há caminho e não estou só” e coragem de abrir o coração para vivenciar o todo que a vida dá. Sinto que a falsa alegria espalhada por toda parte está nos tornando anestesiados e apáticos. Cai bem uns chacoalhões não só para salvar o planeta, mas para nós mesmos. Bem, vamos ao que interessa!
Começo com um livro fantasioso, delicioso e apaixonante. A mexicana Laura Esquivel traz para aqui o gênero do realismo fantástico; trata-se de um reino linguístico em que tudo é possível. É preciso ler com o coração aberto para as magias que estão presentes já na primeira página com a personagem Tita chorando ainda dentro do útero da mãe. O romance se passa entre a cozinha - com as receitas!! - e os arredores da fazenda de uma família de mulheres com uma matriarca viúva. Não é uma história de amor qualquer, nem um romance de roteiro bobo. É dos que tiram o fôlego e apimentam a vida. Uma ótima pedida para um 2026 com mais libido. Ps: tem um filme baseado no livro, mesmo título; gosto do de 1992 e tem no HBO Max.
A história de Tashi, uma mulher africana que passa pelo ritual da mutilação do clítoris e todos os efeitos do depois. Nas páginas, Walker entrelaça personagens como Adam, o marido de Tashi, um homem negro americano, Olivia, a cunhada, Lisette a amiga colorida/amante do marido, uma francesa branca, seus terapeutas/analistas e respectivos filhos. Nas entrelinhas está o continente africano, a colonização, os corpos livres e os presos, as lutas e as perdas. A autora não ganhou prêmios como o National Book Award e o Prêmio Pulitzer de Ficção à toa. As dores e prazeres deste romance são uma porrada das necessárias.
O escritor francês Emmanuel Carrerè usa a ioga e os refúgios de silêncio em lugares afastados como pauta e como sobrevivência. Em Ioga ele traz um relato meio torto de como essas ferramentas o ajudam a lidar com a bipolaridade e outras questões de transtornos mentais. Um livro denso para quem tem questões com saúde mental, aviso de antemão. Pode ser difícil, pois tem relatos dos períodos do autor internado em clínicas de recuperação psiquiátrica. Para quem adentrar, um trecho resumo: “Você deve perscrutar as profundezas de si mesmo. É ao atravessá-las que você atingirá a realidade. A única ferramenta que você possui para atingir a realidade, a única jangada que você possui para concluir a travessia, é o seu corpo.”
Em poucos minutos fui capturada por aquela personagem meio morta meio viva saindo da terra em Portugal. O roteiro cheio de mistérios, fé, romances e lendas, cujos detalhes não carecem de explicação lógica, me levou para o mundo da magia. Que delícia! Oração para desaparecer traz uma pauta bem relevante sobre colonização e povos originários na sutileza da página.Ainda assim é leve. Coloco na mesma cota do realismo fantástico de Como água para chocolate. A gente merece um devaneio quando a realidade está meio louca.
Quando li Tituba e a história que Maryse Condé deu para ela, eu não senti o peso das correntes que a aprisionavam enquanto escravizada. Senti a quentura do seu corpo, sua fé, as fragilidades e as forças do seu ser feminino, sua presença quase tocável perto de mim. A autora nos provoca e nos entrega as sensações da magia de Tituba, por isso, acredito que vem até nós, de tempos em tempos, uma angústia por suas perdas e por sua trajetória de dor, e ao mesmo tempo, sua bondade e sua sublimação. É uma escrita magistral que rompe barreiras pouco palpáveis e muito significativas. Passei meses lembrando dela quase como um farol. Ainda a sinto.
Como este é um lançamento fresquinho, claro que ainda não li. Mas, tenho certeza que será arrebatador, além do tema ser contemporâneo e relevante. Direto da sinopse: em uma Brasília marcada por secas, enchentes e queimadas, Catarina cresce tentando decifrar o mundo ao seu redor. Entre laços familiares frágeis, uma amizade perigosa e o tarô como linguagem possível, A linguagem dos desastres é um romance sobre vínculos, presságios e sobrevivência. Fabiane Guimarães já foi indicada aos prêmios São Paulo de Literatura, Candango e Jabuti e é uma uma autora amiga mãe por quem torço muito. O lançamento oficial é em março, mas já é possível comprar. :)
Há quem classifique a obra da francesa como auto ficção porque quem garante que todo relato ali é verdade? Eu, pessoalmente, trato como uma obra não ficcional porque se é tudo real para ela, então é real na página. Ernaux, por sua vez, segundo minhas pesquisas, pouco se importa em determinar seus livros como isso ou aquilo. Dito isso, em O jovem, a vencedora do Nobel de Literatura conta sobre sua relação com A., um namorado 30 anos mais novo e de uma classe social que ela já não pertence há algumas décadas. Há uma camada erótica, outra da vulnerabilidade típica dela e uma do contexto político/social; tudo com ares joviais. Sugiro este título ao invés do emblemático O acontecimento, da mesma autora, justamente pelo viço juvenil. É relevante dar espaço para coisas sem sentido na vida. Apenas viver o hoje, seus desejos, sua satisfação, sem uma pauta montada.
A jornalista, ensaísta e romancista Joan Didion foi um nome forte na escrita americana, deixou um estilo demarcado e abriu caminho para muitas autoras. Seu sucesso só chegou ao Brasil muito depois, ainda é pouco reconhecida por aqui na verdade. Gosto muito do seu O ano do pensamento mágico sobre o luto da perda do marido. Mas, comprei recentemente Para John, mais um com seu amor na pauta, e mergulhei na leitura mesmo com minha pequena serelepe fazendo bagunça ao fundo. Tocante, sincero e sensível: adjetivos que fazem um pacote e tanto para olharmos nossas próprias feridas. A publicação é a união de páginas do seu diário contando para John sobre suas sessões de terapia para tratar questões da maternidade e do alcoolismo de sua filha Quintana. Didion vai trazendo seus próprios medos, falhas, ansiedades e fragilidades à tona. É um lembrete de como nós, os pais, somos criaturas em busca de colo tanto quanto nossos filhos.
Violeta nasce em plena pandemia da gripe espanhola, em 1920, primeira menina de uma família com cinco irmãos, e morre 100 anos depois, na pandemia do covid 19. Não é spoiler, é a sinopse. No livro, acompanhamos a história dessa mulher extraordinária que vive de um tudo nesse século de vida. Tem uma energia de “fazer acontecer”, terminei a leitura cheia de coragem e ânimo. Também é um livro com pano de fundo de marcos históricos da América do sul, bem propício para o momento. Vale ressaltar que Allende o escreveu depois da pandemia já na casa dos 80 anos, não tinha como não ser inspirador.
O narrador é uma criança, uma raridade em livros adultos e ainda mais bem feito. O livro começa em tom baixo e vai nos conquistando através de historietas sobre a família maluquete do menino, a casa e o bicho de estimação deles - uma ave pra lá de excêntrica. Em uma vida hedônica, o casal vive a dançar a música Bojangles, da Nina Simone, a favorita da mãe, e ignorar qualquer sinal da vida prática. Um belo dia, a realidade bate à porta. Neste momento, o tom muda e entra em cena a inteireza desses personagens e o que realmente sentem. Numa narração sensível, com pequenas inserções da versão do pai, acompanhamos os delírios, sonhos e extravagâncias da mãe, uma mulher encantadora envolvida em martírios mentais dolorosos. É um dos livros mais bonitos que li sobre amor, família, transtornos mentais e as dores e delícias de viver nesse mundo tão cheio de caixinhas. Me surpreendeu, me pegou e virou do avesso. Ps: pode ser sensível para quem está passando por algum transtorno mental latente.
Um romance publicado em 2021 com ares disruptivos que a essa altura já me soa muito real e possível. “O que aconteceria se fosse permitido às pessoas entrar na casa de desconhecidos e circular livremente por meio de um dispositivo tão adorável quanto um robô de pelúcia?”, direto da sinopse para ser mais explícita sem spoiler. Através desse bichinhos que tem olhos que tudo vê, temas como intimidade, amor, solidão, perversão vão se desenvolvendo. O enredo tem personagens em cidades diversas e as histórias vão se cruzando. Esse livro é essencial nessa fase em que estamos vivendo, todos precisam refletir sobre limites em relação a rede social, IA, ferramentas tecnológicas diversas e relações humanas a partir de então.
Conta a história de Valéria Cossati, uma dona de casa, mãe, esposa e secretária de um escritório que vive em Roma no pós guerra e o faz através das anotações no diário da personagem. Vemos a intimidade bruta de uma mulher cujo único lugar que tem voz é no tal caderno. Diários são poderosos mesmo. Esse livro talvez converse com as mulheres da minha geração, mas mais ainda com suas mães. Nos faz criar um diálogo imaginário com as nossas mães, o que acredito ter poderes de cura ancestral. Uma leitura psicanalítica em todas as pontas. Recomendo porque a vida é feita desses cotidianos que parecem pequenos, mas são nosso mapa mais íntimo.
Espero que aproveitem e que a literatura - e toda arte e festa - nos ajude a cultivar fé na vida, olhos brilhantes e um tanto de raiva e tristeza para fervilhar a coragem de sermos cada vez mais conscientes de nós e capazes de lidar com as mudanças inescapáveis. Essa é a oração, amém.
Você tem algum livro que não está aí e que acha uma boa ideia para ler este ano? Deixa aqui nos comentários que contribuir com o listão de todos nós.
Um beijo,
Gabi



Adorei essa lista! Acrescentaria o Arroz de Palma, sobre comida, família e alegrias possíveis ao redor da mesa.
Eu comecei a ler Kentukis (Samanta Schweblin), mas a leitura não fluiu. Acho que vou dar mais uma chance a ele.