Eu só quero chocolate
com receitas para seu deleite
“Não existe mais a casa... — Mas o menino ainda existe”, Manuel Bandeira no poema “Velha Chácara”
A menina em mim viveu uma infância pouco doce. De paladar e outras coisas mais. Por ora, vou me atentar apenas à língua que é mais gostoso. De amargo já basta o “mais” e a vida adulta nesse planeta em decadência. Quando pequena, minha grande gula era coxinha (uma vizinha de rua de vovó Maria vendia uma deliciosa), frutas, pizza daquelas de bairro, o cozido (pernambucano) de vovó - a mesma, Maria -, e o macarrão com sardinha da outra vovó, a Salete. Nem sonhava com chocolate e certamente não tínhamos dinheiro para comprar a guloseima à toa. Meu lanche açucarado favorito era biscoito Sortidos e nunca pegava os chocolatudos primeiro.
Minha irmã nasceu quando eu tinha 6 anos e 9 dias. Ela veio com a língua da sobremesa e amava um brigadeiro e todos os itens mais açucarados do supermercado. Foi assim que adentrei nesse mundo. De qualquer forma, havia parcimônia. Antes de tudo pelo dinheiro contado da época, não podia exagerar nem no Ioiô Mix nem nas coxinhas da padaria. haha E depois por não suportar mesmo. Comia metade e largava. Talvez por isso, carrego na memória os doces que mais me deixaram feliz e lembro deles com detalhes.
Salivo só de lembrar da fatia de bolo de chocolate com recheio de brigadeiro suave e cobertura de merengue - acho que era o italiano - com fios de calda de chocolate da Babette. Era uma lojinha pequena, no bairro das Graças, em Recife. Fechou há muitos anos. Naquele tempo eu comia glúten sem saber que era isso que me fazia passar mal e não mais uma virose. Risos. Mas, o tal bolo era tão bom que me marcou.
Outro foi o da loja Sweets, essa ainda existe, mas não atesto qualidade. Não como lá há pelo menos 14 anos. Bem, era um bolo chamado “mousse de chocolate” com duas camadas de recheio: uma preta e uma branca, cada uma com pedacinhos de chocolate picado dentro. Era suave também. Divino. A mesma doceria tinha também o bolo cookie, delícia.
Consumi esses itens entre os 10 e os 20 anos. Depois meu paladar amadureceu e vieram as restrições alimentares e mais uma vez, comi pouco doce por aí. Por outro lado, aprendi a fazer vários. Mergulhei na cozinha a ponto de abrir minha própria marca de quitutes. Mais uma história para outro dia. Fato é que até hoje prefiro eu mesma fazer minhas sobremesas e indulgências. São sempre - sempre - menos pesadas que as de docerias, mesmo as mais finas. Essa lição veio de um livro sobre comida chamado Regras da comida, do Michael Pollan, um jornalista, documentarista e pesquisador americano sobre alimentação. Na lista, tem o um conselho mais ou menos assim: deu vontade de comer algo diferente? faça você mesmo! Outro que gosto é: não coma nada que sua avó não comeria.
Talvez por ser homem e nunca ter experienciado a reviravolta de hormônios de uma mulher, Pollan não pensou numa coisinha. Nós, queridas proprietárias de um útero, temos ciclos e a TPM já nos coloca entrelaçadas com a vontade do açúcar. Na menopausa, pelo que soube, é um Deus nos acuda. Grávida não seria diferente! Quando o meu enjoo foi controlado por remédios, tudo que eu queria era mergulhar em um pote de doces. Me disseram - e faz sentido - que o paladar da gestante se torna meio infantil, retorna às nossas raízes. Eu quis tudo que minha mãe fazia e ela praticamente só cozinhava sobremesas. Pudim, mingau de “maizena”, cocada. Os desejos, no entanto, não paravam na fofura das memórias maternas. Eu queria CHOCOLATE. E nada de meio amargo.

Minha sacola de mercado sempre tinha um Toblerone, dos poucos de perfil que não contém glúten. Eu já gostava antes, nessa fase se tornou amor. É caríssimo, eu sei. Mas era o desejo. Ainda bem que foi em 2024/25 porque agora a inflação do chocolate está tanta que nem vejo na prateleira, não deve estar valendo o custo nem para venda. Me agradei também com muito sorvete. Não posso comer lactose, então priorizava os de frutas (Mil frutas, te amo), mas no desespero eu dava colheradas numa bola de sabores mais indulgentes.
Achei que isso passaria após o parto junto com o enjoo, a azia e o refluxo. Os sintomas foram embora, o paladar doce ficou. A tal volta para a infância começa na gravidez e parece não ter fim. Quando se tem um filho, você se torna criança de novo. A menina não só ainda existe - como pontua Manuel Bandeira no poema - como te persegue como uma sombra. Queremos colo, aconchego, um descanso mental que só voltando a ter seis anos seria possível ter.
Na primeira semana de recém parida, eu pedi ao marido cafés da manhã infantis. Comi presunto. PRESUNTO! Definitivamente não seguia nenhum conselho do Pollan nem meus princípios alimentares anteriores. Quis também aquele Nescau pequenino, de levar na bolsa. Segui comendo Toblerone. O corpo pede pelo prazer em dobro dado que dormir não é bem uma opção com recém nascido. Atendi. Atendo ainda, mas agora estamos já com outra língua, nem a de antes nem a do durante.
Estou com a língua do agora, da nova pessoa que nasceu junto com a minha filha. E esta, não só no paladar, não é um retorno para a criança que fui. Não se trata disso. Arrisco dizer, certamente quebrando regras da Física, que é uma sobreposição de tempos - passado, presente e futuro juntos e articulados. Enquanto a menina que pari constrói a própria infância, eu refino a minha. Me refaço enquanto ela se faz.
Para momentos “só quero chocolate”
Petit Gateau
O bolinho quente está em desuso na moda gastronômica.Para mim, pouco importa o dito em cardápios por aí e sim o desejo da língua. Eu adoro o combo quentinho com gelado. É uma sobremesa caprichada, concordo, então cai melhor em um café da tarde ou após um almoço/jantar leve. A qualquer hora, é colo garantido.
Gosto de servir com sorvetes mais cítricos para aumentar as camadas de sabor: framboesa, maracujá, frutas vermelhas. Nos meus momentos açucarados da gravidez, tinha de ser o clássico de baunilha mesmo. Atenda sua vontade.
Ingredientes
150g de chocolate meio amargo (uso o Unique 63% Bahia, encontre aqui)
50g de manteiga
2 ovos
+ 2 gemas
1/2 xícara de açúcar
2 colheres de sopa de farinha (para ser sem glúten uso: 1 colher de fécula de batata e 1 de arroz integral, mas pode ser aqueles mix sem glúten tipo o Urbano ou Schar ou só farinha de trigo se puder)
Como fazer: primeiro você liga o forno baixo para aquecer. Em seguida, é hora de derreter o chocolate. Eu uso o microondas. Coloco em um prato fundo por 1 minuto e meio, mas em ciclos de 30 segundos. A cada pausa, mexo um pouco.
Quando está pronto, adiciono a manteiga e misturo. Deixo reservado.
Agora é hora da batedeira. Adiciono os ovos, as gemas e o açúcar e deixo lá batendo até dobrar de tamanho. É hora da farinha! Coloco e misturo até absorver, é bem rápido. Por último, vai o chocolate com a manteiga. Prefiro misturar essa parte com a espátula. Mexer bem em movimentos circulares e pegando o fundo do pote. Unto forminhas de cupcake com manteiga e farinha e distribuo a massa deixando sempre um dedo de espaço sobrando. O bolinho vai crescer. Forno a 200 graus.
E essa é a hora da verdade do petit gateau. Comece a observar com 10 minutos, retire com o palito ainda sujo de massa e o topinho meio mole. A vantagem é que se passar do ponto não fica ruim, só se torna um bolo de chocolate normal. Mas, a ideia é que o interior permaneça meio cru.
Na minha forminha rende, em média, cinco bolinhos. Aproveite!
Chocolate quente
Eu não gosto do chocolate quente cremoso, então isso aqui é minha versão do mais leve. E é também uma forma de me agradar e aumentar minha dose de proteína, li esta semana que a Flavia Machioni faz o mesmo neste texto ótimo sobre saúde da mulher 35+.
Coloco uma xícara de leite para esquentar, adiciono uma colherzinha pequena de chocolate em pó 50% e misturo com o mixer de copo (esse aqui) até ficar espumadinho cremoso. Em seguida, coloco proteína de colágeno sabor chocolate, essa opção é ótima para quem detesta a textura/sabor do whey como eu. Uso essa aqui. Bato mais um pouco com o mixer e tomo antes de dormir num momento de sossego que pode durar 5 ou 20 minutos, depende do humor da minha criança.
Uma semana chocolatuda para nós.
ps: citei muitas marcas, nenhum patrocínio infelizmente. Só era importante para a visualização do texto.
ps2: mas o que tem link direto para Amazon, é afiliado e recebo um pouquinho de participação se você comprar por lá.
ps3: fiz bolo de chocolate esse fim de semana depois de perrengues de viroses e afins, foi uma ótima cura.
Gabi





Esse texto deu vontade de chocolate e também de voltar um pouquinho pra infância. Bonito como ela mistura memória, maternidade e comida num mesmo sabor.