De quem é esse menino?
Nossos filhos podem ser os que ferem ou os feridos e isso não é só sobre os pais
Pais presentes criam filhos mais seguros. Refeições à mesa em família melhoram o desempenho escolar. Tempo de qualidade juntos dá estrutura e autoestima. Segurança dilui ansiedade. Cultura, artes e lazer tornam os filhos mais sábios e respeitosos. Apresentar diversidade cria valores profundos. Liberdade para chorar, sorrir e ser quem se quer ser na infância são o alicerce para adultos mais felizes, bem sucedidos e confiantes. O direito de brincar seguido à risca contribui para sermos pessoas menos perfeccionistas.
A ausência do pai e/ou da mãe cria um buraco no peito que abre brecha para inseguranças. Machismo e misoginia em casa levam jovens a violência doméstica. Comunicação violenta é pilar de transtornos psíquicos. Um lar sem cultura e arte tira os sonhos da infância e constrói adultos sem criatividade. Cobrança intensa de tarefas e ordens cria sujeitos pouco tolerantes ao erro (próprio e dos outros). Atos de corrupção mostram que os caminhos podem ser burlados sem punição. A falta de cuidado e rotina leva os indivíduos à concepção de indisciplina e comportamento pedante .
Dito isso, sabemos que as escolhas dos pais influenciam, ainda na infância, na formação de caráter dos adultos. Mas, o caminho A ou B não é um atestado de comportamento positivo no futuro e nem mesmo no presente. Filhos de pais dedicados não são obrigatoriamente pessoas de bem. O contrário também é válido. A constituição de uma personalidade é muito mais profunda e complexa do que o estilo de vida e educação da família podem definir. Isso poderia ser óbvio, mas, neste momento, viver o coletivo não cabe mais no campo das entrelinhas e é preciso explicitar todas as letras.
A digitalização das relações e do estilo de vida pedem um determinismo no pano de fundo, até mesmo para pautas muito importantes como o abuso sexual, o estupro e a violência de gênero. Delimitar perfis e distribuir as pessoas em caixinhas facilita a polêmica que é o combustível do modus operandi da comunicação neste século, talvez até das conversas pessoais. Além disso, há um conforto íntimo em encontrar justificativas para atos criminosos, principalmente se esta aparentemente não inclui um comportamento praticado por você mesmo.
Cadê o pai desse menino?
Em fevereiro, foi divulgada a denúncia de um estupro coletivo no Rio de Janeiro. A vítima é uma menor de idade de 17 anos. Os criminosos são cinco rapazes de idades variadas, sendo um deles também menor. O crime aconteceu no bairro de Copacabana que anda sim decadente, mas tratando-se de zona sul do RJ, custa caro para viver. No compartilhamento da notícia, uma constante cobrança: cadê os pais desses meninos? O tom era de “com certeza a culpa é da família”. O pai de um deles, figura pública, ainda corroborou com o caos, se comportando de fato de forma ofensiva e, em algumas situações, também criminosa.
A entrevista de uma profissional da justiça falando que a maioria dos casos desse perfil ocorre nas classes mais altas da sociedade viralizou. A fala dela não tem comprovação de pesquisa e me pergunto se, sendo realmente isso, é uma realidade ou se a camada mais rica tem mais proteção, portanto mais coragem de denunciar.
A repetição da busca pelos pais com a gana da culpa me incomodou. Uma sensação nova e estranha, provavelmente porque agora pertenço ao grupo. Os genitores são responsáveis sim por esses meninos e devem responder por isso, principalmente quando o criminoso é menor de idade; é incontestável.
No entanto, quando crimes absurdos - apesar de corriqueiros - acontecem precisamos pensar para além dos pais. Os jovens são também resultado da cultura de senso comum, da escola, do meio digital e até da própria formação de sua individualidade. A série britânica Adolescência, apesar de ser uma obra de ficção, traz à tona muito da vida real neste recorte. No roteiro, o primeiro caminho do judiciário é investigar o comportamento dos pais; está corretíssimo, repito; é o padrão.
Mas nesse caso - spoiler alert - a família é só uma família comum. Um casal trabalhando para sustentar as crianças, sem espaço mental nem para individualidade de cada um, nem do casamento em si, nem da família. O cansaço que todos nós estamos vivendo - com filhos ou não - desse tempo intenso penetra na rotina dos lares. Não os isento de responsabilidade. Se faz necessário, no entanto, reconhecer que é um esforço hercúleo conseguir ter energia para dar conta da vida de crianças e jovens na vida prática e palpável e no universo online; e ainda acompanhando as charadas e iscas de temas como red pill numa linguagem muito distante da sua.
Algo escapa e todo mundo que já foi adolescente sabe disso porque já enrolamos nossos pais com pelo menos alguma bobagem.
A conduta do meio digital em torno de crimes deste perfil leva a sociedade a entender que esse tipo de coisa só acontece em famílias desestruturadas, com ausência de pai ou originárias de classes altas. E é muito perigoso tornar isso uma verdade. Primeiro porque não é. Segundo porque a grande maioria dos abusos cometidos contra menores são em ambientes conhecidos e por pessoas próximas dos pais. Sabemos bem que isso está em todas as camadas sociais. O posicionamento identitário tira força para as vítimas fora do perfil determinado denunciarem.
Famílias comuns com vidas ordinárias e simples têm criminosos. Famílias ricas com vidas extraordinárias têm criminosos. Nossos filhos podem ser os que ferem ou os feridos.
Sozinhos e culpados
Também observo na minha bolha um movimento semelhante ao que se decorre no período das campanhas eleitorais. Iguais falando para iguais. O resultado quando o assunto é família é produzir uma grande massa de culpas em quem está fazendo seu papel suficientemente bem. Quando se cria filhos você vive uma aposta de futuro, só saberemos se nossas escolhas deram certo depois. Pais dedicados a essa tarefa com consciência se sentem ainda mais pressionados quando o desenrolar dos fatos vai caindo em cima unicamente deles. As mães de meninos estão aflitas sem saber se fazem o suficiente para seus filhos se tornarem homens bons.
O medo gerado em torno da educação das crianças não é positivo. Não torna as pessoas envolvidas mais atentas, as torna mais inseguras. E isso acende ainda mais a ansiedade que parece ser cenário fixo do nosso tempo. O resultado são pais e filhos solitários sem saber como confiar nas próprias escolhas em meio a tantas possibilidades de fazer errado.
Não é à toa o ditado africano que diz ser necessário uma aldeia para criar um filho. Ninguém dá conta desse trabalho sozinho se mantendo minimamente bem.
Outro dia li uma publicação de uma pediatra de uma cidade grande do sudeste - não lembro exatamente qual - que foi passar uma temporada trabalhando em comunidades ribeirinhas na Amazônia. Lá as mães de bebês iam na consulta e falavam “meu filho dorme a noite toda, só desperta 5x para mamar”. De volta a sua terra natal, as mães de bebês chegavam à consulta e falavam “meu filho não dorme a noite toda, despertam 5x para mamar”. A própria médica, quando teve bebê repetia a queixa urbana. Eu também fiz isso. Meu marido sempre falou tal qual os ribeirinhos, veio com sabedoria milenar.
Mas, então, qual era a diferença entre essas mães, afinal? Os filhos delas tinham algo especial? Na cidade grande estamos fadados ao sono?
Guiados pelo todo
Nas comunidades ribeirinhas, não existe o conceito do bebê dormir em outro quarto; muitas vezes a família inteira dorme junto no mesmo cômodo. As mulheres criam os filhos juntas, as crianças brincam entre si e na natureza, livres. A rotina é ditada pelo sol. A sobrecarga é menos intensa porque o coletivo cuida das crianças.
Não tenho dúvidas da existência de inúmeros desafios nessas regiões, incluindo inseguranças que sequer imaginamos no nosso mundo concreto e urbano. Mas, o senso de comunidade com certeza ajuda todo mundo a viver menos ansioso e com menos cobrança. Lá, quando um jovem comete um crime, será que perguntam sobre os pais? Ou sobre todos os envolvidos na educação dele? Ou é sobre o que o levou a seguir por um caminho tortuoso? Distribuem culpas ou focam na solução?
Não quero soar a velha nostálgica da praça, mas um cotidiano ditado por uma grande massa digital ao invés de pelo sol me soa como a equação perfeita para focar no próprio umbigo e esquecer o coletivo. Há uma farça no amontoado de conteúdo, incluindo os viralizados, de que aquilo é um abraço, uma forma de saber do mundo. Na prática, é alimento da vaidade e ninguém recebe o afago.
É urgente pensarmos, especialmente nós urbanos e tecnológicos, como tornar o trabalho do cuidado menos árduo e menos desprezado. Parece uma ação pequena demais diante do caos. Mas, nossa vida adulta, nossa própria história, revela o quão enorme é o impacto disso. A nossa estrutura é construída na infância. Mais uma vez, não só pelos pais, pelo todo - estando unidos ou não. Precisamos de um tratado coletivo que nos permita cuidar com carinho e sem culpa, afinal o menino é de todos nós.
Ps: os criminosos, com ou sem base familiar, devem cumprir a pena e obedecer a lei.
Ps2: as pessoas más e escrotas existem e têm filhos. Que os de bem falem mais e mais alto.
Boa semana,
Gabi.





No momento atual é muito difícil ser mãe de menino e não se perguntar se você fez e faz o suficiente. Tenho um de 18 anos e ainda me cobro.